quarta-feira, 14 de setembro de 2016



QUERIDO, DESFIGUREI A CASA apropria-se e transforma diversos objetos

domésticos e decorativos. O trabalho cria um diálogo entre as práticas de arquitetura,

decoração e arte contemporânea, questionando a maneira como essas práticas são

vistas e valorizadas. Os objetos que usei são alterados na sua fisicalidade e função, e

no seu valor conceptual e simbólico. São objetos triviais, comuns e familiares pela sua

presença constante ( como o mobiliário IKEA) ou pessoais (panos feitos com restos de

colarinhos de camisas que pertencem å minha família )



QUERIDO, DESFIGUREI A CASA foi desenvolvido na Casa Bernardo, tratando-a como

espaço arquitectónico, simbólico e histórico. A casa é situação e local. O trabalho tem

eco na minha história, em vivências, desejos e aspirações que a casa desencadeou.

Durante o desenvolvimento das peças fui trabalhando conjuntamente com uma série

de fantasmas: de família, estéticos (de arquitetos e e artistas que admiro), culturais,

sociais e políticos, (sobre género e educação, por exemplo). Foram vozes que me

acompanharam, presentes nos objetos ou nas suas historias.

QUERIDO, DESFIGUREI A CASA segue de uma forma aberta a noção de “pecas de

conversação” : peças ou objetos vistos como interessantes e fora do comum para

incentivarem conversas. Frequentemente eram objetos que davam o estimulo para o

início uma conversa ou discussão em situações sociais . Aqui os objetos saem do

universo educado e comedido do jantar social. Na transformações que operei,

questiono a origem, estética e as narrativas que lhes estão inerentes ou que estes

escondem.

As noções de transgressão e deturpação (de elementos domésticos e femininos ) e

expansão em escala foram importantes no trabalho. Com muitos fui cuidadoso e

meticuloso noutros usei força e violência física. As peças rejeitam funcionalidade, são

aberrações que escapam do universo simbólico e conceptual dos originais.

O doméstico é o domínio da decoração por excelência. Historicamente, e

tradicionalmente, decoração, ao contrário de arquitetura, não é vista como arte, mas

como uma prática menor que existe dentro de um contexto popular e comercial.

Crucialmente, tal é muitas vezes enquadrado em relação a género - decoração é

feminina, arquitetura (e arte) são maioritariamente masculinas.

Decoração é geralmente anónima, os praticantes não são identificados, enquanto os

arquitetos e artistas são conhecidos, nomeados e muitas vezes idolatrados .

Adicionalmente mulheres muitas vezes aparecem em textos arquitetónicos como

objetos decorativos em si, e homens que trabalham em artes decorativas são vistos

como efeminados.



Como artista, tento fazer pontes entre estas áreas e e cada uma tem uma ressonância

pessoal (as práticas de arquitetura e decoração existem na minha família. O meu avô

foi construtor civil, a mão dele costureira, a minha irmã era arquiteta, a minha mãe

trabalhou, profissionalmente e domesticamente, com costura e decoração. )

Misturo estas áreas nos meus trabalhos via formas e materiais tradicionalmente vistos

como femininos, banais (têxteis, linhas, plásticos e borrachas industriais, etc.)

questionando a validade de categorizações e celebrando-as como áreas que não

precisam de validação por mim ( um homem) nem pelo mundo da arte. Como sendo

práticas que desafiam discursos, que as excluem e depreciam. QUERIDO,

DESFIGUREI A CASA ironiza com elementos físicos, decorativos e arquitectónicos que

são também ideológicos, que defendem uma separação clara de géneros e práticas.

Intencionalmente o trabalho usa práticas e objetos menores, tornando-se um gesto de

desafio perante uma fortaleza estética.

"Querido destruí a Casa"













"Querido destruí a Casa"
de Henrique Neves
Casa Bernardo | Caldas da Rainha

sábado, 13 de agosto de 2016

"Querido destruí a Casa" de Henrique Neves















"Querido destruí a Casa" 
de Henrique Neves
Hoje estamos na Casa Bernardo

quarta-feira, 6 de julho de 2016


"Querido destruí a Casa"
de Henrique Neves
Inauguração dia 9 de Julho 2016
até 18 de Setembro
Casa Bernardo

terça-feira, 5 de julho de 2016

segunda-feira, 28 de março de 2016

Carlos Medeiros expõe na Casa Bernardo

Carlos Medeiros expõe fotografias na Casa Bernardo

Vai estar patente na Casa Bernardo, a partir desta sexta-feira, 1 de Abril, uma exposição de fotografias intitulada “Nem uma partida, nem uma chegada”, de Carlos Medeiros.
O autor da exposição é um fotógrafo e actor dos Açores, cuja obra está representada em várias colecções públicas e privadas em Portugal e França, incluindo o Centro Português de Fotografia, o Teatro Nacional D. Maria II e a Cinemateca Portuguesa.
Nesta exposição, que se estreia nas Caldas da Rainha, através da câmara de Carlos Medeiros, a cidade contemporânea e as suas paisagens, revelam-se em cada uma das fotografias.
Através de diferentes imagens em diferentes momentos, Medeiros torna-nos cúmplices da observação das diversas mutações pelas quais as paisagens e os seus actores habitantes presentes e ausentes, passam. O artista funciona, assim, como um encenador, que nos revela o espaço entre limites através da sua objectiva”, refere a apresentação desta exposição.
Nestes registos fotográficos encontra-se também evidente uma determinada mediação das dicotomias, ilustrando o proposto pelo géografo Augustin Berque quando afirma que “a paisagem não reside somente no objecto, nem somente no sujeito, mas na interacção complexa entre os dois termos. Esta relação, que coloca em jogo diversas escalas de tempo e espaço, implica tanto a instituição mental da realidade quanto a constituição material das coisas”.
A exposição vai estar patente de 1 de Abril a 1 de Maio.


sábado, 26 de março de 2016

Através da câmara de Carlos Medeiros, a cidade contemporânea e as suas paisagens, revelam-se em cada uma das fotografias deste corpo de trabalho, e fazem chegar até nós obras, traços, sinais que nos remetem para a leitura das várias subjetividades das experiências sensíveis, normalmente inalcançáveis no espaço real a que estamos habituados.
Através de diferentes imagens em diferentes momentos, Medeiros torna-nos cúmplices da observação das diversas mutações pelas quais as paisagens e os seus atores habitantes presentes e ausentes, passam. O artista funciona, assim, como um encenador, que nos revela o espaço entre limites através da sua objetiva.
Nestes registos fotográficos encontra-se também evidente, por seu lado, uma determinada mediação das dicotomias, ilustrando o proposto pelo Géografo Augustin Berque quando afirma que “a paisagem não reside somente no objeto, nem somente no sujeito, mas na interação complexa entre os dois termos. Esta relação, que coloca em jogo diversas escalas de tempo e espaço, implica tanto a instituição mental da realidade quanto a constituição material das coisas. (BERQUE, 1998)”.
É, pois, com base neste princípio, que as imagens aqui patentes vão fluir de uma forma que nos vai dando a experimentar, à passagem, a expetativa de que algo poderá acontecer ou que está para acontecer nestes pequenos quadrados de um sitio/ não sitio.
É ainda a partir da paisagem, que está como sempre esteve, ligada a uma representação, idealizada ou não, de ideias pré concebidas acerca da busca incessante da captação de um instantâneo que registe as mudanças que têm vindo a ocorrer nesta vida de “ não ter tempo” que a arte procura revelar a transitoriedade do contemporâneo nas suas variadas vertentes expressas em atos, ritos, palavras ou imagens. Objetos da vida material, uma materialidade de espaços construídos, revelam, em si mesmos, uma subjetividade e uma sensíblidade que é partilhada entre o artista e o observador, remetendo-os, ambos, para um culto de significações culturais acerca do real, em que o primeiro surge a questionar o segundo sobre o tempo. Um tempo que não existe em lugar nenhum, mas que, ainda assim, está patente na imaterialidade das fotos ou na fixação das imagens.



Walter Benjamim disse, um dia, algo como isto no momento em que Daguerre conseguiu fixar as imagens: “Os técnicos substituíram os pintores.”. E que técnicos são estes? Ou melhor, que técnico é este que nos propõe olhar para estas representações do real carregadas de negro, carregadas de tudo e de nada, carregadas de histórias ou sem nenhuma história, apenas registos de um simples técnico. É o técnico do olhar ou será o técnico da mente? De nos fazer pensar e de nos obrigar a questionar, de nos obrigar a olhar uma, duas e muitas vezes para uma tradução prática de uma técnica? No fundo, estes técnicos não farão apenas e sempre uma única coisa, captar a luz? Sim. Porém, essa luz captada não vem sozinha, ela carrega consigo uma interpretação reinterpretada de emoçoes, histórias, arquiteturas, paisagens.
Termino citando novamente Berque, acudindo-me da sua ideia de Trajection:
A ideia expressa por trans (tra) é a de um limite, de passar para o outro lado: o limite, no caso, é aquele que o dualismo moderno institui entre o mundo interior subjectivo e o mundo exterior objectivo. Ora, essa dictomia é radicalmente incapaz de explicar a realidade do ecúmeno, logo, da paisagem. Com efeito, como mostrou a fenomenologia ( principalmente Watsuji) e a antropologia pré – histórica ( principalmente Leroi – Gourhan), os ambientes humanos são, por assim dizer, uma extensão do nosso próprio corpo humano (...) O símbolo, inversamente, anula materialmente as distâncias.A trajection conjuga assim, transferência material e metáfora imaterial. (BERQUE, 1998).

António Pedro Mendes
Lisboa, 14 de Julho de 2014

Carlos Medeiros



Apenas espaços,

por habitar. Ou já desabitados?

Horizontes distantes. Reais,

ou imaginados para a vista repousa?

Outras vezes detalhes,

estilhaços visuais.

Antes peças de um puzzle

aguardando construcção.

O preto e o branco,

confronto constante

e o cinzento também ,

mas sempre insuficiente para atenuar o contraste.

Manhã, tarde, noite.

Do luminoso ao sombrio.

E de súbito uma ligeira brisa,

quase um vento talvez.

Vem do mar?

Perturbação momentânea.

Depois um grande silêncio,

que se abate pesado.

Nem uma partida, nem uma chegada.

.

                                                            Carlos Medeiros

                                                              Fevereiro 2016